sexta-feira, março 17, 2006

Há o risco deste artigo ser coisíssima nenhuma.

Em Maio de 68 os estudantes saem às ruas de Paris em luta contra o autoritarismo. A 3 fecha-se a Sorbonne, esse grande ícone do ensino e investigação francesa onde aliás trabalhou o maior geógrafo português, Orlando Ribeiro. A 10, véspera do dia em que Tom Jones domina o top de vendas com “Delilah” entoando My, My, My Delilah / Why, why, why Delilah, revela-se massivamente o apoio aos estudantes, gozando estes da simpatia de quase todos os sectores de actividade, desde operários a bancários (não confundir com banqueiros), de modo a reaver a liberdade individual saqueada por aqueles que se excedem no exercício da autoridade concedida pelo povo, assinando aquilo que nos dizem ser o Maio de 68.

Actualmente é de outra música que se trata, pensa o povo. Confesso que não me atrevo sequer a dizer quem domina o top de vendas dada a enormidade de candidatos ao lugar, e a frequência com que a maioria afirma dominar o top. Dito isto concluo que à imagem do nó cerebral conduzido pelo indistinto mercado dos discos, nem sempre sinónimo de mercado das músicas, estamos perante uma enovelada política em que o povo, mais uma vez, não sabe quem domina o top apesar de ser alvo de domínio.

Hoje, 17 de Março de 2006, os estudantes voltam às ruas de Paris e de França em geral, creio que pelas mesmas razões: o autoritarismo. Hoje, 2006, o problema é mais grave. Não se trata apenas da percepção de quem vive o Agora. É, asseguro, uma afirmação racional – importa juntar as peças e ter consciência de que teremos presentemente uma densidade de factos muito maiores do que nos idos 60’s que nos permite insistir neste tipo de afirmações: hoje, 2006, é mais grave podendo todavia não ser mais importante! O autoritarismo de agora é lento, a conta-gotas, porém agressivo e exercido aqui e ali, não em todo lado mas sendo-o, mais grave porque na verdade quem representa os autoritarismos em 2006 são tão-somente porta-vozes de quem o exerce e daqueles que o fomentam. Uns fazem a música, outros dominam os tops. Em 1968 sabia-se que Tom Jones dominava as vendas, sentia-se, era inegável, hoje não poderíamos afirmar algo semelhante com tanta certeza relativamente a um qualquer pacote “dançarino-cantor-modelo-actor-coisíssima-nenhuma”, nem tão-pouco acreditar naquele que nos dissesse. Apenas reportemos esta prática para o domínio político. Não podemos crer que aqueles que o povo nomeia para gerir o património colectivo são os mesmos que efectivamente o regulam.

Os porta-vozes, políticos portanto, alternam, quem realmente governa mantém-se… e a nós é-nos dito que se trata de “alternância democrática”, bonito. Definitivamente, hoje, 2006, os bois não têm nomes e o povo não é mestre na arte de adivinhar qual boi fez o quê. Foram todos. Não foi nenhum. Bois.

Estamos diante de tudo estando perante nada! Vivemos a Grande Época do Indiferenciado.


Babince

2 Comentários:

Blogger André Kaustico Disse as coisas que se seguem:

Seno os gajos do jardim um grupo de estudantes, ou que foram estudantes até há bem pouco tempo, sabe que as associações de estudantes em portugal servem para organizar festas, uns torneos aqui e ali, levar inocentes caloiras para a associação para serem sodomizadas, e para a apropriação indevida de fundos que a todos nos pertencem. Estes baseiam a sua campanha em populismo puro, e vão buscar fundos a partidos politicos. Estes controlam as associações de modo a que estas não façam muita contestação ao meio politico, pois na realidade o meio estudantil é, na sua esmagadora maioria, ou critico ou ignorante. Assim, as propinas aumentam sucessivamente, os direitos são contantemente retirados e as associações ficam impavidas e seranas. Depois existe as associações academicas, que são o clube de popularidade.
Em frança as associações são activas. Além das festas, que não deixam de se organizar, têm vontade e capacidade de mobilizar. Visitei em outubro passado o estabelecimento que há dias foi ocupado. Espaços com cartazes a revindicar direitos estudantis eram inumeros. Os metodos de luta são algo que faz parte da vida académica. Por isso é que a frança é dos paises mais desenvolvidos do mundo, e nós continuamos num pais a saque, com o povo adormecido, a começar pela massa estudantil universitaria.

17/3/06 17:25

 
Blogger Unknown Disse as coisas que se seguem:

portugal aos portugueses!
E a todos os povos do mundo com insónias também!
(o único sítio onde a população não acorda nem para lutar pela sua vida... ou direitos "afutebolísticos")

21/3/06 21:32

 

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